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António Gonçalves de Bandarra (1500-1556) nasceu e faleceu em Trancoso. Tendo exercido a profissão de sapateiro, dedicou-se à divulgação em verso de profecias de cariz messiânico. Por causa disso, foi acusado pela Inquisição de judaísmo e as suas trovas foram incluídas no Catálogo de Livros Proibidos. D. João de Castro foi o editor da primeira edição conjunta das trovas, com o título Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, publicadas provavelmente em Paris no ano de 1603. A obra foi bem recebida pelos nacionalistas portugueses que aspiravam libertar-se do jugo de Espanha, interpretando as trovas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião. Em 1802, as trovas tiveram uma segunda edição, na cidade francesa de Nantes, patrocinada pelo Marquês de Nisa. São reimpressas em 1809 (Barcelona e Londres), aquando das invasões francesas, com prefácio de Frei José Leonardo da Silva. Em 1815, com o título Trovas Inéditas do Bandarra sai uma nova edição. Entre 1822-1823, com o título Verdade e Complemento das Profecias, uma outra. As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianisma e messiánico de Padre António Vieira e de Fernando Pessoa. (extracto) Dedicatória a Dom João de Portugal, bispoda Guarda SENTE BANDARRA AS MALDADES DO MUNDO E PARTICULARMENTE AS DE PORTUGAL I Como nas Alcaçarias Andam os couros às voltas, Assim vejo grandes revoltas Agora nas Cleresias. II Como usam de Simonias E adoram os dinheiros, As Igrejas, pardieiros, Os corporais por mais vias. III O sumagre com a cal Faz os couros ser mociços, Ah! Quantos há maus noviços Nessa Ordem Episcopal! (...) SONHO SEGUNDO Oh! Quem tivera poder Para dizer, Os sonhos que o homem sonha! Mas hei medo, que me ponha Grão vergonha De mos não quererem crer. Vi um grão Leão correr Sem se deter Levar sua viagem, Tomar passagem, Sem nada lho defender. Tirará toda a escória Será paz em todo o Mundo, De quatro Reis o segundo Haverá todo a vitória. Será dele tal memória Por ser guardador da lei, Polas armas deste Rei Lhe darão triunfo, e glória. Trinta e dois anos e meio Haverá sinais na terra; A Escritura não era; Que aqui faz o conto cheio. Um dos três que vão arreio Demonstrar ser grão perigo; Haverá açoite, e castigo Em gente que não meneio. Já o tempo desejado É chegado Segundo o firmal assenta Já se passam os quarenta Que se ementa Por Doutor já passado. O Rei novo é acordado Já dá brado: Já arressoa o seu pregão Já Levi lhe dá a mão Contra Siquém desmandado. E segundo tenho ouvido, E bem sabido, Agora se cumprirá: A desonra de Dina Se vingará Como está prometido. O Rei novo és escolhido E elegido, Já alevanta a bandeira Contra a Grifa parideira Que tais pastos tem comido; Porque haveis de notas, E assentar Aprazendo ao Rei dos Céus Trará por ambas as Leis, E nestes seis Vereis coisas de espantar. O néscio quer afirmar, E declarar Desde seis até setenta Que se ementa, Do Rei que irá livrar. Louvemos este Barão Do coração, Porque é Rei de Direito; Deus o fez todo perfeito Dotado de perfeição. Este Rei tem um Irmão, Bom capitão. Não se sabe a irmandade? Todo é nobre, em bondade; E na verdade Que sairá com o pendão. Muitos estão desejando, E altercando, Se o meu dito será certo, Se de longe, se de perto? E sobre o tal praticando Aquele grão Patriarca No-lo mostra, e está falando, E declara o grão Monarca: Ser das terras, e comarca, Semente del Rei Fernando. Este Rei de grão primor, Com furor, Passará o mar salgado Em um cavalo enfreado, E não selado, Com gente de grão valor. Este diz, socorrerá, E tirará, Aos que estão em tristura, Desde, conta a Escritura, Que o campo despejará, Os Fidalgos estimados, E desprezados, Que até agora são corrigidos, Com o tal serão erguidos, E mui queridos, E com os Reis estimados. Se lerdes as Profecias De Jeremias, Irão dos cabos da terra Tomar os Vales, e Serra, Pondo guerra, E tirar as heresias, Derrubar as Monarquias, E fantasias Serão bem apontoadas, Serão todas derrubadas, Desconsoladas Fora das possentadorias. Ainda mais profetizando, E declarando: Seus pequenos das manadas, Derrubar-lhe-ão as moradas Bem entradas, E assim o vai mostrando. Já o Leão vai bradando, E desejando Correr o porco selvagem, E tomá-lo-á na passagem Assim o vai declarando. Muitos podem responder, E dizer: Com que prova o sapateiro Fazer isto verdadeiro, Ou como isto pode ser? Logo quero responder Sem me deter. Se lerdes as Profecias De Daniel e Jeremias Por Esdras o podeis ver. |
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