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Cristóvão Falcão de Sousa terá nascido em Portalegre entre 1515 e 1518 de uma família nobre. Seu pai era cavaleiro, tendo servido como capitão na Mina. Foi educado a partir dos nove anos no Paço, onde aprendeu as belas-artes. Por ter casado com uma menor em segredo, foi condenado e preso no castelo de Lisboa. Saído da prisão cinco anos depois, procurou a sua amada em Lorvão, começando entretanto a escrever o poema Crisfal, onde canta a arrebatadora paixão que o tomara. Em 1542, o rei D. João III, para evitar mais escândalos, enviou-o a Roma como seu agente particular. Regressado ao reino, é despachado em 1545 como capitão da fortaleza de Arguim, na África. Regressou a Portugal em 1547, tendo sido novamente preso devido à agressão a um fidalgo. Em 1551 obtém uma carta de perdão. Terá casado em 1553 com Isabel Caldeira, não se conhecendo mais nada sobre o que depois lhe sucedeu. A écloga Crisfal (criptónimo de Cristóvão Falcão?) foi publicada de 1543 a 1546 numa folha volante. Em 1554, é publicada em volume por Ferrara. Em 1559 teve uma edição em Colónia baseada na de Ferrara. A. Epifânio da Silva Dias organizou a edição de 1893 e o brasileiro Sousa da Silveira a de 1933. Até 1908 era opinião unânime de que a obra fora escrita por Cristóvão Falcão. Nesse mesmo ano, Delfim Guimarães publicou o livro Bernardim Ribeiro, o Poeta Crisfal e no ano seguinte Teófilo Braga e a Lenda do Crisfal, em que tentou demonstrar que o autor do écloga era Bernardim Ribeiro e não Cristóvão Falcão. No entanto, estudos mais recentes reafirmam a autoria de Cristóvão Falcão. 1 Antre Sintra, a mui prezada, e serra de Ribatejo que Arrábeda é chamada, perto donde o rio Tejo se mete n'água salgada, houve um pastor e pastora, que com tanto amor se amarom como males lhe causarom este bem, que nunca fora, pois foi o que não cuidarom. 2 A ela chamavam Maria e ao pastor Crisfal, ao qual, de dia em dia, o bem se tornou em mal, que ele tam mal merecia. Sendo de pouca idade, não se ver tanto sentiam que o dia que não se viam, se via na saudade o que ambos se queriam. 3 Algüas horas falavam, andando o gado pascendo; e então se apascentavam os olhos, que, em se vendo, mais famintos lhe ficavam. E com quanto era Maria piquena e, tinha cuidado de guardar milhor o gado o que lhe Crisfal dezia; mas, em fim, foi mal guardado; 4 Que, depois de assi viver nesta vida e neste amor, depois de alcançado ter maior bem pera mor dor, em fim se houve de saber por Joana, outra pastora, que a Crisfal queria bem; (mas o bem que de tal vem não ser bem maior bem fora, por não ser mal a ninguém). 5 A qual, logo aquele dia que soube de seus amores, aos parentes de Maria fez certos e sabedores de tudo quanto sabia. Crisfal não era então dos bens do mundo abastado tanto como do cuidado; que, por curar da paixão, não curava do seu gado. 6 E como em a baixeza do sangue q e pensamento é certa esta certeza cuidar que o mericimento está só em ter riqueza enquerirom que teriam e do amor não curarom; em que bem se descontarom riquezas, se faleciam, por males que sobejarom. 7 Então, descontentes disto, levarom-na a longes terras esconderom-na entre üas serras, onde o sol não era e visto e a Crisfal deixarom guerras. Além da dor principal, pera mor pena lhe dar, puserom-na em lugar mau para dizer seu mal, mas bom pera o chorar. 8 Ali os dias passava em mágoas, da alma saídas, dizer a quem longe estava, e chorava por perdidas as horas que não chorava. Em vale mui solitário e sombrio e saudoso, send'o monte temeroso pera o choro necessário pera a vida mui danoso, 9 Dizer o que ele sentia, em que queira, não me atrevo, nem o chorar que fazia; mas as palavras que escrevo são as que ele dezia. Ali sobre üa ribeira de mui alta penedia, donde a água d'alto caía, dizendo desta maneira estava a noite e o dia: 10 «Os tempos mudam ventura bem o sei, pelo passar; mas, por minha gram tristura, nenhuns puderam mudar a minha desaventura. Não mudam tempos nem anos ao triste a tristeza; antes tenho por certeza que o longo uso dos danos se converte em natureza. 11 Coitado de mim, cuitado pois meu mal não se amansa com choro nem com cuidado! Quem diz que o chorar descansa é de ter pouco chorado; que, quando as lágrimas são por igual da causa delas, virá descanso por elas; mas como descansar hão pois que são mais as querelas? 12 Com tudo, olhos de quem não vive fazendo al, chorai mais que os de ninguém, que o que é para maior mal tenho já para maior bem. Lágrimas, manso e manso, prossigam em seu ofício; que não façam beneficio : não servindo de descanso, servirão de sacrefício. 13 Minhas lágrimas cansadas, sem descanso nem folgança, a minha triste lembrança vos tem tam aviventadas como morta a esperança. Correi de toda vontade, que esta vos não faltará. Mas isto como será? Pedi-la-ei à saudade, e a saudade ma dará. 14 Todos os contentamentos da minha vida passarom, e em fim não me ficarom senão descontentamentos que de mim se contentarom. Destes, polo meu pecado (inda que nunca pequei a e quem amo e amarei), nunca desacompanhado me vejo nem me verei. 15 Faz-me esta desconfiança ver meu remédio tardar, e já agora esperar não ousa minha esperança, por me mais não magoar. Se por isto desmereço, dê-se-me a culpa assim e seja só com a fim, que há muito que me conheço aborrecido de mim. 16 Meu coração, vós abristes caminho a meus cuidados, pera virem a ser banhados na água de meus olhos tristes, tristes, mal galardoados. Necessário é que vamos algum remédio buscar para se a vida acabar . est'é bem que dessejamos, est'é nosso dessejar. 17 Iremos pela estrada por onde os tristes vão porque nela, por rezão deve ser de nós achada, achada consolação. Sobir-me-ei ao pensamento qu'é alto; de ali verei verei eu se poderei ver algum contentamento de quantos perdidos hei. 18 Mas o que poderá ver quem já da vista cegou? Porque quem me a mim levou meu alongado prazer nenhum bem ver me deixou. Deixou-me em escuridade um mal sobre outro sobejo, pelo que triste me vejo tam longe da liberdade como do bem que dessejo. 19 Verei a vida, que em vida bem vista tanto aborrece aborrece a quem padece tristeza mal merecida, que minha fé mal merece. Levarom-me toda a glória, com quanto bem dessejei, dessejei e alcancei; ficou-me só a memória, por dor, de quanto passei. 20 Lembrança do bem passado, que não devera passar, esta me há-de matar; dá-me tal dor o cuidado, que se não pode cuidar. Nada, se não for a morte, me dará contentamento: segundo sei do que sento, não sento prazer tão forte que conforte meu tormento. (...) |
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