José António Gonçalves (de seu
nome completo José António dde Freitas Gonçalves), natural de S. Martinho,
Funchal, 13.06.54, pertence aos órgãos directivos da Associação Portuguesa de
Escritores (APE) e é presidente da Associação de escritores da Madeira (AEM),
da qual foi co-fundador (1989). Desde muito jovem que publica textos na
imprensa e tornou-se Jornalista profissional em 1971 (Jornal da Madeira), tendo
sido co-fundador e dirigente da secção regional do Sindicato dos Jornalistas na
Região e da Associação dos Jornalistas da Madeira. Preside também, desde 1991,
à Associação dos Desportos da Madeira. Revelou-se em «O Poeta Faz-se aos Dez
Anos», da Maria Alberta Meneres (que lhe dedicou um capítulo do seu livro), em
1973 (Assírio & Alvim). Em 1973 integrou o Caderno de Poesia & Crítica «Movimento
(número único, org. A. J. Vieira de Freitas), com António Ramos Rosa, Eugénio
de Andrade, Pedro Támen, José Bento, A. J. Vieira de Freitas, José Agostinho
Baptista e Gualdino Avelino Rodrigues. Dirigiu nos anos setenta a página
literária «Poesia 2000» no «Jornal da Madeira e, em 1993 o «Suplemento Cultura»,
no «Notícias da Madeira».
Fundou e dirige várias colecções
literárias, com realce para o Movimento «ILHA», com quatro espicilégios
editados (1975, 1979, 1991 e 1994, CMF, onde revelou cerca de uma vintena de
novos autores madeirenses), os «Cadernos Ilha» (doze números publicados desde
1988), «Prosas da Ilha» (dois números), «A Memória das Palavras» (dois números:
«Única», de Dórdio de Guimarães e «A Ilha de Circe», de Natália Correia» ), «Livros
de Cordel» (dez números, CMF, incluindo poetas da ilha e do Continente
português, com realce para Ernesto Rodrigues, Vergílio Alberto Vieira, João Rui
de Sousa, José Viale Moutinho, David Pinto Correia e António Ramos Rosa) e
criou, recentemente, outra, «Terra à Vista», na Editora Regionalista da Madeira
«Arguim» (cinco números, incluindo Francisco Fernandes, São Moniz Gouveia e Lília
Mata).
Enquanto agente cultural
organizou uma vasta diversidade de eventos, desde espectáculos musicais,
(trouxe à Madeira a Casa da Comédia, de Filipe Lá Féria, com «A Bela Portuguesa»,
de Agustina Bessa-Luís), recitais, conferências, Feiras do Livro, com autores
como José Saramago, José Manuel Mendes e Fernando campos, entre outros, «Os
Olhares Atlânticos» (um mês de cultura madeirense em Lisboa, Biblioteca
Nacional, 1991, com exposições, debates, mostras de pintura, livreiras,
musicais, etc.), exposições de poesia ilustrada, assim como acções de
divulgação de obras e escritores em escolas e bibliotecas, municipais e da
Fundação Calouste Gulbenkian. Escreveu diversos prefácios para livros de
autores locais (de São Moniz Gouveia, Carlos Nogueira Fino, João Luís Aguiar,
Francisco Fernandes, João Carlos Abreu, João Dionísio, por exemplo), fez a
apresentação pública de inúmeros outros e desenvolveu diversa produção
ensaística sobre obras e escritores nacionais e estrangeiros ao longo dos
últimos trinta anos, para além de assinar dezenas de letras para canções
gravadas por artistas portugueses, folhetos e catálogos de artistas plásticos e
de encartes em discos, assim como produziu, realizou e apresentou variado tipo
de programas de rádio de índole cultural nas diferentes estações públicas e
privadas da Madeira.
Com Ivo Caldeira seleccionou e
concretizou o projecto «O Canto dos Poetas Madeirenses» que assinalou, em 1999,
o primeiro aniversário da Rádio TSF na Madeira, reunindo uma dezena de poetas
em registo de voz, com o apoio da DRAC-M, num CD amplamente divulgado dentro e
fora da Região.
A sua obra, num total de quase
duas dezenas de livros (sem contar com as antologias) foi comentada, analisada
e criticada por autores como Manuel Frias Martins («Dez Anos de Poesia em
Portugal – Leitura de uma Década 1974-1984», Editorial Caminho, 1986), Ernesto
Rodrigues («Verso e Prosa de Novecentos», Instituto Piaget, 2000), Ramiro
Teixeira, Natália Correia, Dórdio Guimarães, Albano Martins, Vergílio Alberto
Vieira, João Rui e Sousa, António Fournier, Giampaolo Tonini, Massimo Bussone,
Maria Aurora Homem, Francisco Sousa Neves, João David Pinto Correia, Horácio
Bento de Gouveia, Alberto Figueira Gomes, Dalila Teles Veras, J. Henrique
Santos Barros, Ana Margarida Falcão, José Viale Moutinho, José Laurindo Goes,
entre muitos outros. Traduzido em russo, italiano e espanhol, irá ser incluído
numa nova antologia do Conto de autores madeirenses a publicar em língua
italiana em Pisa, numa organização de António Fournier, na sequência da obra
laudatória em poesia que divulgou sobre Giacomo Leopardi, na passagem do seu bi-centenário
de nascimento, dedicada ao seu poema «Infinito».
OBRAS PRINCIPAIS
Prosa:
Réstea de Qualquer Coisa
(Crónicas, ed. de A., 1973); Uma Entrevista com Adelino Amaro da Costa (JM,
1976); O Sol na Gaveta – Registo de um Percurso Humano de João Carlos Abreu (Arguim,
2002)
Poesia:
É Madrugada e Sinto (ed. de A.,
1974); O Esconderijo do Caruncho (Poesia 2000, JM, 1975); Pedra-Revolta (Ed. de
A., 1975); A Crista de Neptuno (Ilha 2, CMF, prefácio de Natália Correia); 20
Textos para Falar de Mim (Cadernos Ilha, nº. 1, 1988); Antologia Verde
(Cadernos Ilha, nº.5, 1991); Arte Mágica (Ilha 3, CMF, 1991); Bar Cheirando a
Rosas (Ilha 4, CMF, prefácio de Ernesto Rodrigues); Os Pássaros Breves (Átrio,
Lisboa, Col. Pirâmide, posfácio de João Rui de Sousa, 1995); Tem o Poder da
Água (Editorial Éter, Lisboa, prefácio de Ernesto Rodrigues, 1996); Noites de
Insónia (CMF, Colecção Livros de Cordel nº. 1, 1998); Giacomo Leopardi e o
Suave Desprendimento do Infinito (Ed. Correio da Madeira, prefácio de António Fournier,
1999); À Espera dos Deuses (Ed. Correio da Madeira, 1999); Lembro-me desses
Natais (ilustrações de Maurício Fernandes, textos introdutórios; de João Rui de
Sousa e Vergílio Alberto Vieira, Ed. Correio da Madeira, 2000); Aventura na
Casa dos Livros (Col. Cadernos Ilha nº. 10, Ed. Correio da Madeira, 2000); Esquivas
são as Aves (Col. Cadernos Ilha, nº. 11, Ed. Correio da Madeira); Memórias da
Casa de Pedra (Col. Terra à Vista, nº. 1, Arguim, 2002)
Antologias
(que organizou e integrou)
Ilha (sete autores, Poesia 2000,
JM, Funchal, 1975); Ilha 2 (seis autores, CMF, 1979); Ilha 3 (dez autores, CMF,
1991); O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses (v., Secretaria R.T. Cultura e
Emigração, 1989); Poet’Arte 90 (v., Associação de Escritores da Madeira, 1990);
Poetas da Ilha (v., Biblioteca Nacional/Associação e Escritores da Madeira,
1991); Vers’Arte 91 (v., CMF/Associação de Escritores da Madeira, 1991)
e ainda organizou a edição:
«Crónicas do Norte» de Horácio
Bento de Gouveia (1901-1983, prefácio e notas, CM S. Vicente, 1994)
ANTOLOGIAS (as mais recentes, em
que está representado):
100 Anos de Federico Garcia Lorca
– Homenagem dos Poetas Portugueses (Universitária Editora, 1998); Antologia de
Poesia Erótica (Universitária Editora, 1999); O Escritor (APE, nº. 13/14,
Lisboa, 1999); Mealibra (nº. 6, Centro Cultural do Minho, 2000); Lisboa com
seus Poetas (Adosinda Torgal e Clotilde Correia Botelho, D. Quixote, 2000); «Poeti
Contemporanei dell’Isola di Madera (org. e trad. de Giampaolo Tonini, ed.
Centro Internazionale della Gráfica de Veneza, 2001)
TELEVISÃO
(autoria e guionista)
Ora…O Mar (teledramático da RTP-Madeira,
realização de Paulo Valente, Prémio Açor de Bronze da IV Mostra Internacional
da Televisão do Atlântico, 1988)
Retratos da Madeira (série
biográfica, seis episódios, produção de Hoffman & Jardim, realização de
Eduardo Geada, RTP-Madeira, 1989/1990)
O Morto (teatro, peça em 1 acto,
Teatro Experimental do Funchal, direcção de Eduardo Luís, RTP-Madeira, 1994)
CINEMA
(guiões para documentários)
Açores Outono (produção de José
Luís Cabrita, realização de Acácio Almeida, 1978)
Madeira – Bordado de Sonho
(produção do IBTAM, realização e António de Sousa, 1980)
PRÉMIOS
(algumas das distinções, sem
contar com as alcançadas em festivais de canção infanto-juvenil)
Prémio Nacional de Poesia
(Juventude Operária Católica, «Todos os Homens são Meus Irmãos», 1972); Prémio
de Literatura Leacock/Secretaria Regional da Cultura (com o livro «20 Textos
para Falar de Mim», 1988); Açor de Bronze (teledramático «Ora…O Mar», IV Mostra
Internacional de Televisão do Atlântico, 1988) ; Galardão de Mérito da Cultura
da Região Autónoma da Madeira (com a antologia «O Natal na Voz dos Poetas
Madeirenses», 1989); Escritor/Poeta do Ano (Diário de Notícias do Funchal,
1991); Evento Cultural do Ano (com Rui Lima, projecto «Natal em Timor», com Rui
Lima, incluindo canção tema, vídeo-clip – o primeiro produzido e realizado na
Madeira – e campanha nacional humanística e solidária com o povo timorense,
1991); Galardão de Mérito Cultural (pela obra desenvolvida na Região, Governo
Regional da Madeira, 1994); Escritor do Ano (revista «Turismoda», Lisboa, 2002)
OPINIÕES
«José António de Freitas
Gonçalves, é autor de um poesia onde, só por si, se ressuma o sentir e o pensar
de uma identidade insular, credenciando-o, pelo rigor da sua construção e por
nela se adivinhar o poeta, empenhado sem reservas, no caminho da aventura
poética (…)».
José Henrique Santos Barros
(Jornal da Madeira, 1973)
«Assinale-se a qualidade
individual de alguns poetas (da Madeira) que aguardam, quase desesperadamente,
um tempo de reconhecimento colectivo de acto cultural (…), sobretudo um
novíssimo, cujo nome, se soprarem de feição os ventos da fortuna, irá deixar as
suas marcas na futura poesia portuguesa: José António de Freitas Gonçalves»
Manuel Frias Martins (in «Dez
Anos de Poesia em Portugal», Caminho, 1986)
«Tenho acompanhado durante alguns
anos a tua extraordinária actividade cultural e a tua poesia. Em sociedades
pequenas, sobretudo tão pequenas como as nossas duas Regiões (Madeira e
Açores), só grandes impulsos, grandes terramotos permitem manter viva uma cultura
e aumentar-lhe a qualidade. Fui ficando com a impressão de que tu és esse terramoto.»
Manuel Machado (Oslo,
1990)
«José António Gonçalves é um
poeta de ímpetos e de hábitos frugais, um iconoclasta pagânico. É um poeta de
intuições e de saberes e que viaja as suas experiências líricas por facetas
singularmente múltiplas. Distribui-se por temas e abordagens que perfazem um
conjunto quase heteronímico. Poesia tantas vezes deambulatória e comovida (…), fibrada,
recalcada de amor e de instintos, de súbitos entusiasmos, de instabilidades
sofridas e de quanta generosidade, aquilo a que o grande poeta brasileiro Jorge
de Lima apelidava de poesia gorda, que auto se nutre, que tudo absorve
em si. O poeta está sempre à frente da sua condição limitada de homem (humana),
ultrapassa-o, excede-o». Dórdio Guimarães (Lisboa, 1996)
«Raras vezes, ao apresentar a
julgamento um balanço de produção poética como este (Antologia Verde, 1991),
tão rico, profuso e coerente, independentemente da insistência ou variedade de
conteúdos e formas, se nos depara o mesmo virtuosismo de admiráveis metáforas,
a mesma plástica reflectora do que constitui a verdadeira essência poética,
toda ela pautada pelo equilíbrio, harmonia e ponderação».
Ramiro Teixeira (Primeiro
de Janeiro, 1992)
«O naipe de recursos, episódicos
ou não, exibido por José António Gonçalves, enquadra-se bem num estilo de voz e
num testemunho que, recusando ostensivamente qualquer forma de angelismo,
qualquer idealização tendente a iludir a riqueza, o contraditório ou os
embaraços da praxis existencial, tendem a perfazer-se numa amadurecida
simbiose entre a necessária fidelidade ao real e a transfiguração metafórica
com que se supera o excesso simplificante, o discurso apenas denotativo, a
conjugar-se com um despojamento onde convivem tensão e amplitude referencial,
desenvoltura inventiva e palavra emocionada».
João Rui e Sousa (in
posfácio a «Os Pássaros Breves», 1995)
«Estou a ler o poeta José António
Gonçalves. A abertura, a desenvoltura, a espontaneidade, a autenticidade, o
carisma (a que se junta um profundo sentido da fraternidade com os seres e as
coisas), que encontrei no homem, está aqui, também, no poeta. E é bom,
reconfortante, encontrar assim alguém em que poesia e vida (em que o poeta e o
homem) se harmonizam, se identificam, se completam. Superiores, muito
superiores, em qualidade, estes seus poemas, à maioria dos que a crítica
oficial (a universitária e a outra) nos propõe (nos impõe), todos os dias, como
produtos de primeira qualidade. Trata-se, na maior parte dos casos, de
subprodutos, contaminados, numas vezes, de literatura (de literatice), outra,
de sarro e de babugem. Prestidigitadores são (assim os vejo pelo menos) muitos
dos laureados poetas da nossa praça. Publique a sua obra, exporte-a para o continente.
Ela acabará por se afirmar, mesmo sem as muletas da crítica. Não desista».
Albano Martins (Vila Nova
de Gaia, 1999)
«A feição mais consistente em
José António Gonçalves é a de poeta-orador, é o espectáculo, com flagrantes
emotivos dos homens e das coisas, de orador português à luz da História
madeirense, o qual, via modernismo à Álvaro de Campos reivindica um particular
movimento da lírica nacional»
Ernesto Rodrigues («Verso
e Prosa de Novecentos», Piaget, 2000)
«Sendo José António Gonçalves um
poeta excepcional, não se sabe bem o que dizer senão confirmar a sua qualidade
e, em última instância, nem é preciso na verdade ler o livro («Memórias da Casa
de Pedra») para se saber isso. (…) Os principais estudiosos da sua obra (…) são
unânimes em considerar a sua faceta de homem público e solidário, generoso na
dádiva e voluntarioso no esforço, para descobrir a sua dimensão de orador, de
dinamizador de afectos, de coragem e dinamismo intelectual (…), (até porque)
nos últimos trinta anos, qualquer experiência literária plural, qualquer
iniciativa colectiva que se realizou nesta terra, teve o seu dedo (…), (com a
sua) enorme criatividade, o seu generoso espírito de iniciativa, inclusive na
descoberta de novos valores (…), (sem o que) o panorama cultural madeirense,
quer em termos de uma consciência de classe por parte dos escritores locais,
quer em relação ao tempo mental de uma comunidade, normalmente alheia ao
fenómeno literário, seria um autêntico deserto. A sua poesia é a expressão da
luta de um homem para não perder a sua verdadeira voz, a que lhe vem de dentro,
o tal percurso da memória de que fala este livro, a faceta pela qual a sua Rossana,
Gilda, se apaixonou, sem ter que esperar a vida inteira para o descobrir». António
Fournier (Universidade de Pisa, in Clarabóia, Funchal, 2002)
»O livro («Memórias da Casa de
Pedra») de José António Gonçalves reflecte a tão actual miscigenação genológica
entre a narrativa, o drama e a poesia, a qual permite uma maior e mais rápida
empatia da contenção poética com o mundo expansional do leitor (…). No percurso
de «memórias» deste poema narrativo em cantos líricos – e a
preencher o seu espaço físico e mental, literário e poético -, pode sentir-se,
desde o início, a casa como personagem, quer de vivência social, quer de uma
vivência pessoal e intimista que se estende da infância à idade adulta, num
percurso contínuo que determina, apesar dos separadores gráfico-semânticos, a
unidade de uma muito bem sucedida poética do lugar».
Ana Margarida Falcão
(Teatro Baltazar Dias, 2002)
POEMAS ESCOLHIDOS
ONDE SE FALA DO MAR
PARA FALAR DE MIM
1
vieram de mim os longos sóis e os
longos dias.
vieram de mim o arrastar dos
bancos, os cânticos das igrejas,
e vim eu, senhor do meu nariz,
nobre sem títulos nem castelos
nem divisas,
duma ilha pequena, perdida numa
concha
de mar, onde nasci. era a
primeira vez
que eu abria os olhos, e senti-me
rei e marinheiro. estava
embrulhado numa alga, e adormecia
numa gruta, adornada
por búzios quietos. os peixes
visitavam-me e afastavam
os murmúrios, os gritos, os
monstros pelados,
e o eco da minha voz, que
habitavam os meus sonhos. é por
isso que me revesti da luz
cintilante das suas escamas
e tenho, dizem-no as mulheres que
desconheço, um suor
sem perfume, um suor sem matéria,
enquanto que o meu corpo
tem o encanto do cheiro a
maresia.
2
trouxe comigo
do país onde vi as mãos me
crescerem,
um barco de madeira carcomida,
amaldiçoada
pelo vento marinho,
numa viagem de calados suspiros.
3
cheguei, depois de muito navegar,
a
uma terra verde,
bordada a pérolas no mar. abandonei
a viagem
e passei a conviver com sereias e
ninfas
silenciosas, que perdiam o seu
tempo plantando
palmeiras, cuidando de animais
selvagens, soltando
aves em sorrisos lentos,
pelos buracos vermelhos das suas
bocas, infantis e sensuais,
em rotas roxas.
4
após longos meses, longos sóis e
longos dias
que criei, escrevo: estrangeiro
meu espírito em meu
corpo,
ou perdido meu sentido dento de
mim –
a ilha é pequena. a minha voz
perde-se no seu verde incansável.
5
trago nos meus dedos sabor
amargo e estranho. as naus se
foram e rebocaram o meu barco,
deixando sulcos no meu peito.
Trago sabor amargo
nos meus dedos. quem mos devolve
iguais aos da minha
infância? quem mos torna
pequenos? Está a fonte
da minha saciação longe da minha
sede e o meu fulgor sem alento
é transporte impróprio para me
levar à satisfação. Meus
dedos, agora reparo porque estou
cansado, não chegam para a
minha ausência,
nem esta minha insuportável sede
para o meu regresso.
6
vieram de mim longos, longos
dias,
vieram de mim os cânticos das
igrejas, as orações de desespero,
o arrastar dos bancos, o gosto a
salsa. de madeira
é esta ilha órfã de nascença,
minha irmã e minha amante, minha
candeia anunciada em minha voz,
reflectida em meu grito,
reproduzida dentro de mim. terra
verde e talvez virgem, há muito
tempo, no meu regaço antigo,
por que me perdi.
José António Gonçalves
(in «É Madrugada e Sinto»,
Funchal, 1974)
PENSAR UM NOME
1
para falar de uma ilha não há
um nome único. é preciso dizer
casas
e telhados, um cemitério ao fundo
onde algures a água pode chegar
- essa água sempre girando à
volta
dos olhos dessa mesma gente
abatendo o pó das mesmas ruas
e enxotando as mesmas crianças
das mesmíssimas soleiras de
porta.
2
pensar um nome sem árvores
ou um bom punhado de velhos no
jardim municipal
e oferecer o seu gosto salgado
ao paladar do turista exigente
farto da cor do mar sem o beijo
do céu
e atento ao ritmo do xaramba
- a madeira saberia a alumínio
batido na ombreira
dos dias mornos
derretendo nos bois a canção dos
vilões
curiosos dos limites das
montanhas
e da maneira como morre o sol.
3
no interior das casas cheira a
cal
e à pedra mole onde dormem os
séculos.
o cimento e o andaime vão
chegando
derradeiramente comandados pelos
amantes da areia
e vão cobrindo de tijolo o espaço
do calhau
- apetece rebentar na cabeça do
silêncio
este amor pelas coisas antigas
a saudade das mãos cansadas
e de saborear a terra sem flores
murchas.
4
a ilha é um nome verde
sonhador de uma manhã de versos
onde caiba um poema de planícies
eternas.
José António Gonçalves
(in «A Crista de Neptuno», Ilha
2, CMF, 1979)
PORQUE NASCI
sou poeta porque nasci só no
orvalho das manhãs
e descobri nas palavras que
explorei no silêncio
a explicação das coisas a
razão da brancura
a vontade inexplicável de estar
aqui
onde caí com as mãos presas e os
olhos vendados
o corpo negro e nu descoberto ao
longo dos montes.
sou poeta. gritei-o longe com a
força da minha voz
e as valas fecharam-se e
deixaram-me passar.
mantos azuis ventos fortes mares
estranhos
céus límpidos tomaram conta de
mim. sou poeta.
nasci só, no orvalho das manhãs,
protegido
por flores
por bombas, por maldições e o meu
corpo é uma haste
ou harpa ou arma, pedaço de pão,
fogo, fome ou lanterna
brinquedo rodando nas mãos de
jugos. sou poeta.
dêem-me o vosso arado. deixai-me
cultivar vossas terras
áridas, vossos desertos secos. deixai-me
soçobrar
nos vossos barcos náufragos. deixai-me
criar epitáfios
fogueiras, lendas. deixai-me com
os vossos filhos vagando pelas
montanhas, pela lã das ovelhas. pelas
ventanias. deixai-me construir um
ruído mudo de silêncio
uma voz calada, mais vibrante que
esta branda fala
para dizer-vos um poema sou
poeta nasci rosa
no orvalho transparente das
manhãs.
José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de
Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)
PORTO SANTO, VERÃO DE 1973
oiço a música forjada e quente do
sol e do mar
embravecido, num cântico azul,
sem manhãs, nem
pureza, nem casas. os barcos,
brancos e vermelhos
brilham e baloiçam, baloiçam e
brilham afogados
pela água fria e irritada. as
palavras flamejam
e soltam-me gritos amorfanhados
enquanto as construo
na areia da praia em chama, onde
o mar despeja
a sua ira da cor do céu. a hora,
esta hora, é aquela
do beijo, da fervura, da comida,
do sono, ou então
a do amor. é um castelo, uma
cara, no chão molhado
o tempo. uma mão. cinco dedos num
esconderijo profundo
do gesto, do vómito sem cor nem
corpo. é o sol e as
formigas, o vento e a música
procurando um porto, um
cais, ou um navio, um braço
queimado correndo a pele
e o suor do sonho. oiço as vozes,
a música, e congemino
um silêncio cavalgando o ruído
enquanto o calor cai
nos olhos, devorando a carne e o
pensamento. ao meu
pé, algumas crianças jogam lama
no meio-dia e procuram
a mãe. encontram-na na água morna
do porto, perdida
e embrenhada na alma dum santo
sem auréola, primitivo,
no coração dum homem só e húmido,
embriagado, dizendo
versos com as rimas colorindo as
pálpebras inchadas.
e toda a gente fala, ao mesmo
tempo. a tarde desprende-me
o lugar da mão assustada. e ela,
solta, é o rosto fornicado
da esperança, a água bebida com
sal, bebida com sol, sem
saber a nada. é uma carta, um
diário, ou um postal. é o
porto santo moldado na pedra
negra, escavada ao alcance
da música e do poema. sem
loucura, nem amor.
José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de
Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)
CRÓNICA DO NÁUFRAGO ADORMECIDO
NOS BRAÇOS DE UMA SEREIA
escutam-se nos seus cabelos as
ondas
do mar como se os abismos trouxessem
o eco
dos peixes beijando-se em camas
de algas
e os pescadores fossem deuses a
invadir búzios
reinos de silêncios quebrando o
encanto
da água exposta na luz dos
espelhos
com o sexo à flor da pele
palpitando
por entre os olhos da natureza a
chamar
sempre ao longe como se pudesse
convencer
um corpo a ficar eternamente
abraçado
a outro corpo no lugar onde é
possível
construir a casa habitar o tempo
e sorrir
aos pássaros que passam na rota
do sol
sim é possível escutar as ondas
batendo
na rocha macia dos seus cabelos
soltos ao vento
José António Gonçalves
(in «Os Pássaros Breves», Átrio,
Lisboa, 1995)
A VIAGEM ERA A CARAVELA
a Ernesto Rodrigues
a viagem era a caravela nos
sonhos de Zarco
nesse tempo onde o vento soprava
lenços e viúvas
esperavam no cais de todas as
partidas
eram escarpas chamando ao longe
pelos descobridores
penedias e morros ainda sem nome
bramindo no mar
ansiando pelo colmo no calor das
enxadas
havia terra e arvoredo madeiras
para construir
igrejas e naus no coração dos
agricultores
empurrando-os sempre para o
nevoeiro dos horizontes
os primeiros não conheciam as
artes do bordado nem das vinhas
semeavam o trigo para enganar o
destino e os rochedos
amando a cana-de-açúcar nos
abismos da aguardente
depois é que chegaram os engenhos
e a sabedoria dos velhos
o atravessar das entranhas com os
cânticos das levadas
e o xaramba dos arraiais no
elogio das alegrias
os campos aprenderam a dança das
flores e dos abacates
enchendo as manhãs de silêncios e
do cheiro a erva fresca
deixando correr as crianças no
vagar das bananeiras
as pradarias pintavam-se com as
cores das casas
e de vez em quando uma árvore
amparava a chuva
para receber o pólen do futuro
as ilhas não frequentavam o medo
dos marinheiros
e os calhaus não cheiravam ao
suor dos homens
onde as mulheres os vinham chorar
José António Gonçalves
(in «À Espera dos Deuses», Ed.
Correio da Madeira, 1999)
É O MAR QUEM VENCE
para José Manuel Mendes
o marinheiro viu o abismo e deu o
passo em frente
soprado pela força do vento nas
velas enfunadas
escutando o rumor fundo das vagas
cavadas
nos olhos vidrados do adamastor
indiferente
é mais além a contenda o fogo
fátuo do horizonte
o lugar onde se avista o
testemunho da descoberta
a sede feroz a água solta
transformada em fonte
a repentina voz presa em busca da
alma liberta
é preciso ir avançar bramir no
silêncio eterno
quebrar o ímpeto surdo da oca
imensidão marinha
fremir o espírito das ondas e ao
trespassar-lhe a espinha
reduzi-las ao sentido da palavra
impressa nas noites de inverno
mais tarde é o cheiro da terra
pisada a bandeira
a conferir presença posse cor
firme da nacionalidade
e depois a vontade de seguir
sempre na esteira
de um chamado a que ninguém
pertence
e onde é apenas o mar quem vence
o apelo de abraçar a lonjura com
o rosto da liberdade
José António Gonçalves
(in «À Espera dos Deuses», Ed.
Correio da Madeira, 1999)
PÔR-DO-SOL
para Virgílio Pereira
Este é o mar que se veste de
vermelho,
convidado pelo ocaso do poema
para o baile do fim do dia.
Ei-lo à distância, abraçando a
periferia
de um olhar que se perde nas
falésias,
sorridente na brevidade da sua
figura.
Poderia o ilhéu dar o salto
inconsciente,
entregando-se ao sal rosado do
seu vestuário,
curioso por provar a água do seu
bordado.
Porém, resguarda-se no calor da
terra,
pisando a ilha com a carne da sua
loucura,
acorrentado às ervas que nascem
no recolher das casas.
E suspira, como um anjo esquecido
na multidão solitária que
percorre as ruas,
perguntando pelo lugar onde
descansam as suas asas.
José António Gonçalves
(in «Aventura na Casa dos Livros»,
Col. Cadernos Ilha Nº. 10, 2000)
SOPHIA DE MELLO BREYNER
ANDRESEN
Tenho uma praia branca
de areia doce
na cabeça.
Raramente me esqueço
do mar e acordo sempre
com um cavalo amarelo correndo
sobre as ondas mansas
em direcção ao infinito
com um peixe preso na boca.
Nesses dias deito-me e imagino
montanhas à distância dos
horizontes
vestidas com os verdes dos
quotidianos
e as flores dos altares
e depois recolho-me ao sal
das bibliotecas fechadas.
José António Gonçalves
(in «Aventura na Casa dos Livros»,
Col. Cadernos Ilha, Nº. 10, 2000)