José Leon Machado


Capa do livro'


Quero Cortejar o Sol

de José Leon Machado

(Pré-publicação)


1986 (extractos)

13 de Janeiro, segunda-feira, Seminário Conciliar – Estamos em campanha eleitoral para as presidenciais. Ontem esteve cá em Braga o Freitas do Amaral a fazer um comício. O reitor autorizou que a malta fosse assistir. Se tivesse sido o comício do Salgado Zenha, certamente não teria sido tão mãos largas. O comício foi bastante concorrido e animado. Como não cabia toda a gente no recinto do Teatro Circo, acabou por ser feito na rua. Os meus colegas arranjaram uma bandeirinha e autocolantes a dizer Prá frente Portugal! Eu fiquei com um autocolante, mas não o colei na lapela. Pu-lo a marcar um livro de Teologia da Revelação.

 

17 de Janeiro, sexta-feira, Seminário – O comício do Salgado Zenha foi ontem. O reitor, e contra o que fica dito atrás, autorizou a saída daqueles que quisessem assistir. Fomos meia dúzia. O Teatro Circo estava a meio da lotação. Mas para não ficar atrás em relação ao comício anterior, os comunas decidiram fazê-lo também na rua. A quem queriam eles enganar? Os meus colegas não quiseram as bandeirinhas nem os autocolantes do Zenha. Eu trouxe um e juntei-o ao do Freitas, no livro de Teologia da Revelação.

 

20 de Janeiro, segunda-feira, Seminário – Realizou-se ontem o terceiro comício eleitoral, desta vez com a Maria de Lurdes Pintasilgo. Lá fomos uns quantos assistir. O Teatro Circo estava com pouca gente. Vi alguns padres, alguns intelectuais da cidade, professores e uns quantos jovens. Parece que é a candidata da gente de óculos redondinhos. A pose dela, com a bandeira nacional por trás como se já fosse a presidente da república, não me convence.

Alguns colegas trouxeram autocolantes. Não havia bandeirinhas. Parece que a comissão eleitoral da Pintasilgo não tem grandes recursos financeiros. Eu trouxe um autocolante e lá está, com os outros, entre as páginas do livro de Teologia da Revelação.

 

22 de Janeiro, quarta-feira, Seminário – Mário Soares, candidato também à Presidência da República, esteve cá ontem. O comício foi realizado no local dos outros. Havia muita gente, não tanta como no do Freitas, mas certamente mais do que no do Zenha e no da Pintasilgo. Se fôssemos a medir os resultados das eleições do próximo domingo pela quantidade de pessoas que assistiram aos comícios, eu não teria dúvidas em dizer que o Freitas ganhará as eleições. O Mário Soares fez tantos disparates como primeiro-ministro que as pessoas estão fartas dele. E aqui por pessoas entendo o cidadão comum minimamente esclarecido que não esteja filiado no PS.

Os meus colegas arranjaram bandeiras e autocolantes a dizer Soares é fixe. Quando voltámos para o Seminário, atiraram com tudo a um caixote do lixo, daqueles que estão na rua pendurados a um poste de iluminação. Eu guardei um autocolante e pu-lo junto com os outros três.

 

26 de Janeiro, domingo, Seminário – Decorrem hoje as eleições presidenciais. Como estou recenseado na freguesia de São Vítor, depois da Missa de São João do Souto dirigi-me à secção de voto, que era na Escola Secundária Carlos Amarante. No caminho encontrei o padre Arieiro e fomos juntos. Ele disse-me que temia pelo nosso candidato.

– O nosso candidato? – perguntei.

– Sim, o Freitas do Amaral. Também é nesse que vais votar, não é?

Eu não lhe disse que sim nem que não. É que, naquele momento, e à distância de alguns duzentos metros da secção de voto, eu simplesmente ainda não sabia qual era o meu candidato.

 

5 de Fevereiro, quarta-feira, Seminário – Assisti ao debate televisivo entre o Mário Soares e o Freitas do Amaral, os candidatos à Presidência da República mais votados e que vão à segunda volta nas eleições. O Freitas, a nível intelectual, está muitos graus acima do Mário. Este, por sua vez, uma velha raposa da política, não se deixou intimidar facilmente pela capacidade de raciocínio do seu rival e foi dando uns golpes baixos, comuns em gente de pouco saber e de muito fazer.

 

17 de Fevereiro, segunda-feira, Seminário – O Mário Soares venceu as eleições com uma ajudinha de última hora do Álvaro Cunhal, que decidiu ir à televisão ordenar às hostes bolcheviques que votassem de olhos fechados e de nariz tapado no secretário geral do PS. Do mal o menos, referiu. Sempre era melhor ter um presidente de esquerda, mesmo sendo socialista, do que um de direita. E foi isso o que tramou o Freitas do Amaral, que tinha esta eleição praticamente garantida.

Pessoalmente, não tenho nada contra o Mário Soares. Os meus pais dizem que foi ele quem nos deu o que temos hoje: liberdade e melhores condições de vida. Devem ter alguma razão. Mas para mim o Freitas do Amaral é outro género de pessoa e creio que o que o tem prejudicado é o facto de ele pertencer a um partido, o CDS, que está conotado com os ricos e com a ala conservadora. O livro intitulado Portugal que ele publicou recentemente apresenta um homem inteligente e culto, muitos graus acima desses politicozecos de carreira semeados no 25 de Abril e que agora proliferam como as macelas e os dentes-de-leão.


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