13 de Janeiro, segunda-feira, Seminário
Conciliar Estamos em campanha eleitoral para as presidenciais. Ontem
esteve cá em Braga o Freitas do Amaral a fazer um comício. O reitor autorizou
que a malta fosse assistir. Se tivesse sido o comício do Salgado Zenha,
certamente não teria sido tão mãos largas. O comício foi bastante concorrido e
animado. Como não cabia toda a gente no recinto do Teatro Circo, acabou por ser
feito na rua. Os meus colegas arranjaram uma bandeirinha e autocolantes a dizer
Prá frente Portugal! Eu fiquei com um autocolante, mas não o colei na
lapela. Pu-lo a marcar um livro de Teologia da Revelação.
17 de Janeiro, sexta-feira, Seminário O
comício do Salgado Zenha foi ontem. O reitor, e contra o que fica dito atrás,
autorizou a saída daqueles que quisessem assistir. Fomos meia dúzia. O Teatro
Circo estava a meio da lotação. Mas para não ficar atrás em relação ao comício
anterior, os comunas decidiram fazê-lo também na rua. A quem queriam eles
enganar? Os meus colegas não quiseram as bandeirinhas nem os autocolantes do
Zenha. Eu trouxe um e juntei-o ao do Freitas, no livro de Teologia da
Revelação.
20 de Janeiro, segunda-feira, Seminário
Realizou-se ontem o terceiro comício eleitoral, desta vez com a Maria de Lurdes
Pintasilgo. Lá fomos uns quantos assistir. O Teatro Circo estava com pouca
gente. Vi alguns padres, alguns intelectuais da cidade, professores e uns
quantos jovens. Parece que é a candidata da gente de óculos redondinhos. A pose
dela, com a bandeira nacional por trás como se já fosse a presidente da república,
não me convence.
Alguns colegas trouxeram autocolantes. Não havia
bandeirinhas. Parece que a comissão eleitoral da Pintasilgo não tem grandes
recursos financeiros. Eu trouxe um autocolante e lá está, com os outros, entre
as páginas do livro de Teologia da Revelação.
22 de Janeiro, quarta-feira, Seminário
Mário Soares, candidato também à Presidência da República, esteve cá ontem. O
comício foi realizado no local dos outros. Havia muita gente, não tanta como no
do Freitas, mas certamente mais do que no do Zenha e no da Pintasilgo. Se
fôssemos a medir os resultados das eleições do próximo domingo pela quantidade
de pessoas que assistiram aos comícios, eu não teria dúvidas em dizer que o
Freitas ganhará as eleições. O Mário Soares fez tantos disparates como
primeiro-ministro que as pessoas estão fartas dele. E aqui por pessoas entendo
o cidadão comum minimamente esclarecido que não esteja filiado no PS.
Os meus colegas arranjaram bandeiras e autocolantes
a dizer Soares é fixe. Quando voltámos para o Seminário, atiraram com
tudo a um caixote do lixo, daqueles que estão na rua pendurados a um poste de
iluminação. Eu guardei um autocolante e pu-lo junto com os outros três.
26 de Janeiro, domingo, Seminário Decorrem
hoje as eleições presidenciais. Como estou recenseado na freguesia de São
Vítor, depois da Missa de São João do Souto dirigi-me à secção de voto, que era
na Escola Secundária Carlos Amarante. No caminho encontrei o padre Arieiro e
fomos juntos. Ele disse-me que temia pelo nosso candidato.
O nosso candidato? perguntei.
Sim, o Freitas do Amaral. Também é nesse que vais
votar, não é?
Eu não lhe disse que sim nem que não. É que,
naquele momento, e à distância de alguns duzentos metros da secção de voto, eu
simplesmente ainda não sabia qual era o meu candidato.
5 de Fevereiro,
quarta-feira, Seminário Assisti ao debate televisivo entre o Mário Soares
e o Freitas do Amaral, os candidatos à Presidência da República mais votados e
que vão à segunda volta nas eleições. O Freitas, a nível intelectual, está
muitos graus acima do Mário. Este, por sua vez, uma velha raposa da política,
não se deixou intimidar facilmente pela capacidade de raciocínio do seu rival e
foi dando uns golpes baixos, comuns em gente de pouco saber e de muito fazer.
17 de Fevereiro, segunda-feira, Seminário
O Mário Soares venceu as eleições com uma ajudinha de última hora do Álvaro
Cunhal, que decidiu ir à televisão ordenar às hostes bolcheviques que votassem
de olhos fechados e de nariz tapado no secretário geral do PS. Do mal o menos,
referiu. Sempre era melhor ter um presidente de esquerda, mesmo sendo socialista,
do que um de direita. E foi isso o que tramou o Freitas do Amaral, que tinha
esta eleição praticamente garantida.
Pessoalmente, não tenho nada contra o Mário Soares.
Os meus pais dizem que foi ele quem nos deu o que temos hoje: liberdade e melhores
condições de vida. Devem ter alguma razão. Mas para mim o Freitas do Amaral é
outro género de pessoa e creio que o que o tem prejudicado é o facto de ele
pertencer a um partido, o CDS, que está conotado com os ricos e com a ala
conservadora. O livro intitulado Portugal que ele publicou recentemente
apresenta um homem inteligente e culto, muitos graus acima desses politicozecos
de carreira semeados no 25 de Abril e que agora proliferam como as macelas e os
dentes-de-leão.