Fernando Miguel Bernardes nasceu no dia 14 de Dezembro de 1929 em Gândara dos Olivais, Leiria. Fez os primeiros estudos em Leiria, frequentando depois a Universidade de Coimbra e a Universidade Clássica de Lisboa, onde tirou o curso de engenheiro geógrafo. Fez um curso de pós-graduação em Cálculo Científico como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi professor do ensino secundário e professor do ensino superior, trabalhou em várias empresas e foi director do Departamento de Acção Sociocultural da Câmara Municipal de Almada. Tem participado em vários colóquios e programas relacionados com a motivação para a leitura de crianças e jovens.
BIBLIOGRAFIA
Ficção
Docas Secas Romance. Lisboa, Editoral Escritor, 1991, 236 páginas. Capa com óleo sobre Tela de Emília Matos e Silva. Depósito Legal nº45120/91; (s/ ISBN).
A Enfermeira Olga (contos), Lisboa, Editorial Escritor, 1992, 125 páginas. Capa com Guache de Manuel Jorge, Ilustrações de Armanda Andrade. Depósito Legal nº 56668/92; ISBN 972-9484-17-1.
A Imagem de Fausto (contos), Lisboa, Editorial Escritor, 1998, 155 páginas. Capa com Técnica Mista sobre Tela de Luís de Lemos. Depósito Legal nº 130838/99; ISBN 9728334-62-1.
Testemunho e Narrativa Histórica
Escrito na Cela, Lisboa, Edições Avante, Colecção Resistência, 1982, 157 páginas. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Uma Fortaleza da Resistência, Lisboa, Edições Avante, Colecção Resistência, 1991, 154 páginas. Depósito Legal nº51112/91; ISBN 972-550-194-2.
Poesia
Recolagem, Lisboa, Livros Horizonte, Colecção Horizonte Poesia, 1989, 61 páginas. Depósito Legal nº28699/89; ISBN 972-24-0713-9.
Antologia
Literatura Actual de Almada, Almada, edição da Câmara Municipal de Almada, 1998, 734 páginas. Coordenação de Fernando Miguel Bernardes. Capa com Acrílico sobre Tela de Francisco Relógio. Depósito Legal nº 119532/98; (s/ ISBN).
Literatura Infanto-juvenil
Uma Estrela na Mão, Lisboa, Edições Ró, Colecção Madrugada, 1982, 44 páginas. Capa e Ilustrações de Jerónimo de Sousa. Menção Honrosa do Júri dos Prémios Fundação Calouste
Gulbenkian de Literatura para Crianças (Revelação) em 1982. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Uma Estrela na Mão, 2ª edição, Lisboa, Edições Ró, Colecção Madrugada, 1983, 46 páginas. Nova Capa e Novas Ilustrações de Jerónimo de Sousa. Menção Honrosa do Júri dos Prémios Fundação Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (Revelação) em 1982. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
A Menina da Trança que Dança, Lisboa, Livros Horizonte, Colecção Pássaro Livre, 1985, 30 páginas. Capa de Henrique Cayatte, Ilustrações de Jerónimo de Sousa. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
O Grilo e o seu Violão Lisboa, Livros Horizonte, Colecção Pássaro Livre, 1987, 23 páginas. Capa e Ilustrações de Paula Amaral. Depósito Legal nº 18672. (s/ ISBN).
Tudo Gira em Toda a Parte Lisboa, Livros Horizonte, Colecção Pássaro Livre, 1988, 24 páginas. Capa e Ilustrações de Pedro Cavalheiro. Depósito Legal nº 21723/88. (s/ ISBN).
Ser Livre, Lisboa, edição do Autor, 1998, 39 páginas. Capa e Ilustrações de Carlos Canhão. Depósito Legal nº 127510/98, ISBN 972-97-9290-9.
Presença em Antologias
Antologia do Prémio Almeida Garrett, Porto, Editora Ateneu Comercial do Porto, 1957, 117 páginas. Coordenação de João Gaspar Simões. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Poesia Portuguesa do Pós-Guerra, 1945-1962, Lisboa, Editora Ulisseia, Colecção Poesia e Ensaio, 1965, 424 páginas. Coordenação de Afonso Cautela e Serafim Ferreira. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Poemas Livres 3, Porto, Edição dos Autores, 1968, 94 páginas. Coordenação dos Autores. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
O Nosso Amargo Cancioneiro, Porto, Editora Latitude, Colecção Novo Norte, 1972, 152 páginas. Coordenação de José Viale Moutinho. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
800 Anos de Poesia Portuguesa, [Lisboa], Edições do Círculo de Leitores, 1973, 545 páginas. Coordenação de Orlando Neves e Serafim Ferreira. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Um Postal para Luanda Lisboa, Edições Vega e Associação Portugal-Angola, Colecção Outras Obras, 1986, 70 páginas. Coordenação da Associação Portugal-Angola. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN).
Contoário, Lisboa, Editorial Escritor, 1993, 166 páginas. Coordenação de Leonardo de Freitas. Depósito Legal nº 64315/93; ISBN 972-9484-25-2.
Cântico em Honra de Miguel Torga, Coimbra, Edições Fora do Texto, Colecção Poesia/Nosso Tempo, 1996, 143 páginas. Coordenação de António Arnaut e Rui Mendes. Depósito Legal nº 103531/96. (s/ ISBN).
Contoário Cem Lisboa, Editorial Escritor, 1996, 398 páginas. Coordenação de Leonardo de Freitas. Depósito Legal nº 104225/96; ISBN 972-8334-05-2.
Literatura Actual de Almada, Almada, Edição da Câmara Municipal de Almada, 1998, 734 páginas. Coordenação de Fernando Miguel Bemardes. Capa de Francisco Relógio. Depósito Legal nº 119532/98. (s/ ISBN).
Antologia 100 Anos, Federico Garcia Lorca: Homenagem dos Poetas Portugueses, Lisboa, Editora Universitária, 1998, 334 páginas. Coordenação de Ulisses Duarte. Ilustrações de Maria Almira Medina. Depósito Legal nº 122882/98; ISBN 972-7001-26-2.
A Poesia Está na Rua, [Porto] edição INATEL e Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1999, 52 Folios. Coordenação do INATEL e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. (s/Depósito Legal; s/ ISBN).
Presença em Antologias de Literatura Infanto-juvenil
Verso Aqui Verso Acolá, Lisboa, Plátano Editora, 1990, 99 páginas. Coordenação de Natércia Rocha. Ilustrações de Manuela Costa. Depósito Legal nº 30436/90; ISBN 9726215595.
Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, Lisboa, Edição do Instituto Piaget, Colecção Cancioneiro, 1992,311 páginas. Coordenação do Instituto Piaget. Capa com Pintura de Sara Nunes Fernandes, Contracapa com Pintura de Alexandra Oliveira Cruz. Depósito Legal nº61819/92; ISBN 972-9295-06-x.
Presença em Livros Escolares
Viagens e Transportes, Lisboa, Edição do Departamento da Educação Básica do Ministério da Educação, 1994, 160 páginas. Coordenação de Madalena Patrício. Capa e Ilustrações de Cecília Guimarães. Depósito Legal nº84892/94; ISBN 972-742-020-6.
Presença em Revistas
Cadernos Nº 4, Junho de 1992 Almada, Companhia de Teatro de Almada. O Escritor Nº 5, Março de 1995, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores. Anais de Almada Nº 1, 1998 Almada, Câmara Municipal de Almada.
Presença em Discos de Som
Manuel Freire. DP, 45 rpm, Discos Tagus TG 112, s/d [1960-1969]
Daniel. DP, 45rpm, Discos Estúdio EEP 50104, s/d [1960-1969]
José Afonso. LP, 33 1/3 rpm, Discos Orfeu, Stereo, STAT 004, BIEM 004-13, Edição Arnaldo Trindade e Comp. Lda., s/d [1968]
Adriano Correia de Oliveira. LP, 33/3 rpm, Discos Orfeu, Stereo, STAT 010, BIEM 010, s/d [1971].
José Afonso. Compact Disk, CD SO 3037, Edições Movieplay Portuguesa S.A., 1987.
Adriano Correia de Oliveira, compact disk, CD MOV30401, Edições Movieplay Portuguesa, 1999.
Representação em Arquivos
Arquivo da História do Movimento de Resistência ao Regime Fascista em Portugal. Torre do Tombo da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Sobre o Autor, Discussões Pertinentes ao Autor, Recensões
"Ficção e Realidade nas Páginas de Docas Secas de Fernando Miguel Bernardes" de Serafim Ferreira. In Jornal de Queluz, 22 de Novembro de 1991.
"Docas Secas de Fernando Miguel Bernardes" de Orlando Cardoso. In Jornal de Leiria, 8 de Outubro de 1992.
De Memória em Punho de Alberto Vílaça. Coimbra, Edições Minerva, 1992. Depósito Legal 53946/92; lSBN 972-9316-36-8.
"É Belo o Aço em Docas Secas" de R. C. V.. In Fogo de Campo, Março de 1992.
" Uma Fortaleza da Resistência" de Hernâni Silva. In Notícias da Amadora, Agosto de 1992.
"Fernando Miguel Bernardes ou a 'Ficção Poética' de Serafim Ferreira. In Jornal de Queluz, 17 de Novembro de 1992.
"A Enfermeira Olga de Fernando Miguel Bernardes" de Orlando Cardoso. In Jornal de Leiria, 10 de Dezembro de 1992.
"Ficção e História" de O. N.. In A Nave: Correio Beirão, 17 de Dezembro de 1992.
"A Enfermeira Olga " de Fátima Viana. In Letras e Letras, nº91, Ano VII, Março de 1993, Porto.
"Fernando Miguel Bernardes: Vida e Arte como Luta" de Urbano Tavares Rodrigues. In Letras e Letras nº 102, Ano VII, Novembro de 1993, Porto.
"'Contoário', Editorial Escritor" de Hernâni Silva. In Gazeta de Felgueiras, 25 de Dezembro de 1993.
A Poesia na Literatura para a Infância de José António Gomes. Lisboa, Edições Asa, Colecção Perspectivas Actuais/Ensaio, 1993. Depósito Legal no 55959/92; ISBN 972-4111-57-1.
"Re Colagem de Fernando Miguel Bernardes" de Hernâni Silva. In A Voz de Famalicão, Fevereiro de 1994.
O Mud Juvenil em Coimbra: História e Estórias de Alberto Vilaça. Porto, Editora Campo das Letras, Colecção Campo da História nº7,1998. Depósito Legal no 123515/98; lSBN 972-610099-2.
"Almada na Literatura Actual" de Serafim Ferreira. In A Página, Outubro de 1998.
O Acto e a Letra de Serafim Ferreira. Lisboa, Editorial Escritor, 1998. Depósito Legal no 126291198; ISBN 972-8334-49-4.
"Antologia de Almada". In Jornal de Letras, 15 de Agosto de 1998.
Prémios
Menção Honrosa do Prémio Rosa Damasceno, Teatro Rosa Damasceno, Santarém, [1947?].
Distinção pelo Júri do Prémio Almeida Garrett de Literatura, 1957, Porto.
Menção Honrosa do Júri dos Prémios Fundação Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (Revelação), 1982, Lisboa.
Trabalho Editorial
Redacção de O Escritor, revista bianual da Associação Portuguesa de Escritores (APE): 1994 presente.
Trabalho Institucional
2º Secretário da Associação Portuguesa de Escritores (1994-1998) 1º Secretário da Associação Portuguesa de Escritores (1999-2001).
Contacto
Associação Portuguesa de Escritores (APE)
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1200 Lisboa Portugal
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DOCAS SECAS
CAPÍTULO II
Quer das docas quer das oficinas, a maior parte dos operários não passaram pela Escola. Considerados aptos, começaram logo numa profissão específica, excepto os que nenhuns conhecimentos possuíam, entre os quais uns dois centos de analfabetos, que analfabetos continuavam, a quem eram distribuídas funções não qualificadas.
Mas os barcos entravam e saíam, os armadores mostravam-se satisfeitos com a qualidade e preço da mão-de-obra. O milagre era da tenacidade, da vontade férrea do geral dos operativos, chefes e subordinados.
Numa manhã de fim de Outono, antes das 8 horas, a afluência aos diversos postos de trabalho fez levantar voo os bandos de gaivotas que, pousadas sobre os braços dos guindastes, dir-se-iam, envoltas na bruma, frutos cinzentos em pernadas de árvores exóticas.
As gaivotas formaram um tecto macio, tapete voador das mil e uma noites que se deslocou, coleante, para o Tejo ainda baço àquela hora.
O operário Adérito Salvado 11755 nos ficheiros da firma encaminhou-se para a ferramentaria, onde requisitou o material necessário à jornada e o fato à urso, e dirigiu-se à doca 2. Pelo caminho, enfiou o saco de serapilheira na cabeça pela abertura feita no fundo, e nos buracos laterais meteu os braços. Ia trabalhar no interior de um cilindro dos motores do YOUNG LIFE.
Seguia-o, colado aos calcanhares, um cão de focinho curto e olhos lânguidos, que entrara no estaleiro certamente por engano mas se dera bem com os pedaços de pão que lhe traziam do refeitório e com os mimos que lhe davam os operários.
Subiu o portaló íngreme e escorregadio e de lá do alto, da amurada junto à proa do petroleiro, avistou o cachorro que, de rabo entre as pernas, desistira de o seguir.
Embrenhou-se no emaranhado de escadarias que se afundavam nos poços do navio até se perderem na distância.
Quando chegou, já o êmbolo estava na posição inferior. Deixou-se deslizar para a base do cilindro e começou a tarefa. Trabalhou duro um bom bocado, e quando o operário chefe por ali passou pôde levar a indicação de subir o êmbolo uma primeira parte.
Içado pela própria peça subiu também uns palmos o Adérito, sujo e com o estômago a dar horas e não passava ainda do meio da manhã.
Agia com determinação.
Isolado, os ouvidos repercutiam os ferros que batiam lá fora, a rebitagem de chapas, a grenalha de aço em jacto de ar comprimido da decapagem contra a parte exterior do cavername, as descargas dos arcos-eléctricos dos soldadores, as ordens e avisos gritados pelos chefes. Mas tudo à distância, tudo coado pelas paredes do cilindro como se estivesse dentro de um casulo.
É uma ilusão, a vida pensava com os seus botões, manejando a escova de aço. Os anos que andei e as voltas que dei à procura disto, agora vem um tipo e chama-me a atenção. Fizeste a Escola? Saíste serralheiro? Atiram-te um osso que não sabes roer, suas e móis-te para lhe pegar, dão-te um empurrão e uma pequena ajuda, desenrasca-te que não largas isso enquanto não estiver pronto. E nas devidas condições. Se for preciso ficas umas horas, deixo-te fazer serão se te portares bem, o dinheiro dá-te jeito. É isso. O amigo tinha razão quando colocava todas aquelas questões. Não só o Seiça, mas Ferrão e outros punham as coisas com muita clareza.
Ao toque da sirene, Adérito trepou do cilindro do bloco e encaminhou-se para a escotilha mais próxima. Atravessou o tombadilho e desceu, bem seguro ao corrimão, as escadas oleosas do portaló.
Embora, Piloto! chamou ele o cão, que parecia não ter arredado pé em toda a manhã, ou saber, por qualquer sentido que se lhe desenvolvera, que o homem cujo cheiro lhe lembrava factos agradáveis ia agora aparecer e dirigir-se ao edifício de onde habitualmente lhe trazia pão.
Quando voltava do refeitório, trincando obsessivamente um palito, Adérito encontrou o velho das cobaias. E no trajecto que tinha a percorrer até à caverna do cilindro reviveu, sem se aperceber, a primeira vez que ele as utilizara para si.
Ia, com outros, retirar umas válvulas, bem localizadas, do fundo de um dos tanques do SEVEN SEAS. O velho fez descer, na ponta da sirga, uma das gaiolas, a avaliar o grau de desgasificação do ambiente lá em baixo. Aguardou um momento e içou o fio. A cobaia vinha morta.
Adérito tem um frémito de nojo. Deita fora, com um jacto de saliva, o palito macerado.
Os operários, que aguardavam, chamaram indignados a atenção do homem. Ele mandou recado ao encarregado geral de que muito gás havia ainda que fazer sair daquele tanque. Depois tirou o bicho da gaiola, os dedos em pinça numa perna mole, e deitou-o para o canto. Aceitou um cigarro e fumaram todos.
O encarregado apareceu pouco depois, contrariado.
Experimente lá isso novamente, ó mestre! Estes gajos têm medo de morrer? O armador tem pressa, isto não é trabalho para maricas.
Os operários cuspiram.
Adérito começa agora a subir o portaló.
O velho coçou a cabeça de cabelos húmidos e ralos, escolheu uma cobaia jovem da gaiola grande mudou-a para a pequena e mergulhou-a no abismo. Entreolharam-se. Calados, há coisas neste mundo que não têm mesmo graça. Depois viram-no puxá-la devagar, inclinado, o nariz fino a pingar uma aguadilha senil. Colocado à vista, 0 porquinho da Índia quebrava das pernas, caía-lhe a cabeça, piscava os olhos avermelhados.
Vá!, toca a descer! O animal está vivo, e é uma figurinha sem resistência nenhuma! incitou o encarregado.
Hesitaram.
Ou querem ir dormir a sesta? Isto é pegar ou ir embora! As ordens são terminantes. Aliás, quem se for, não volta a entrar naqueles portões!
Adérito deixa-se escorregar para dentro do cilindro
Consultaram-se. Um disse: levamos uma cobaia boa e, se ela fraquejar, subimos.
O encarregado sumira-se, o velho preparou-lhes a gaiola e o grupo embrenhou-se nas profundidades da fortaleza indiferente.
Adérito vinga-se com a escova de aço nas bordas do cilindro.
«Nunca» pensa ele. «Nunca desci nem descerei a um tanque sem estar certo da desgasificação, ou sem levar comigo um desses bicharocos. Vou trabalhando com o olho nele, e se o vejo ir-se abaixo subimos ambos, respiramos um bocado, e então voltamos para o fundo. Que me importam as farófias do encarregado? Morra lá ele, se é tão valente.» Alivia o capacete, limpa o suor do rosto enegrecido. «Ou tão cobarde.»
Graxa! resmoneou entredentes.
Docas Secas
, Lisboa, Escritor, 1991
A MENINA DA TRANÇA QUE DANÇA
UMA COISA MUITO IMPORTANTE
Era uma vez uma menina de tranças... Não. A menina só usava uma trança. Grossa, mas era só uma: pendida sobre as costas, e que lhe baloiçava com tanta doçura - como quem dança... quando ela caminhava no seu passito gracioso. Era a Menina Da Trança Que Dança. A Menina Da Trança Que Dança saiu alegre de casa logo de manhã. Na mão direita levava a mala da escola, cheia de livros e cadernos, tendo num cantinho acomodada uma coisa muito importante; e a mão esquerda, com o andar da menina, ia marcando o ritmo da trança que dança...
Pelo caminho encontrou outras raparigas e rapazes da escola. Todos conversavam alegremente, mas a Menina Da Trança Que Dança por vezes perdia o fio à conversa porque ia pensando naquilo que levava num cantinho da mala, junto aos livros. De tal maneira que o Zé Chirão uma vez ainda lhe pegou na trança e perguntou:
Em que pensas, que só fazes é sorrir, sorrir, e não dizes nada?
Mas a menina não quis responder, era um segredo importante, e lá seguiu sorrindo e com a trança dançando ao ritmo dos seus passos. Felizmente o Zé Chirão não insistiu, a sua atenção prendia-se no rumo da conversa do grupo que alegre seguia o seu caminho.
E nisto, quase de repente porque a Menina Da Trança Que Dança nem tinha dado pela caminhada, surgiu a Escola, toda pintada de um verde claro, com muitas árvores baixinhas em redor e o telhado de beirais vermelhos cheios de ninhos das andorinhas que esvoaçavam por ali em volta.
E, já dentro da Escola, era uma alegria ruidosa, um zumbido de colmeia de meninos e meninas que se cumprimentam dizem bons dias, riem tagarelando, até que entra a Senhora Professora e convida todos a prepararem-se para a ginástica.
Correm aos armários, tiram calções e sapatilhas, a Menina Da Trança Que Dança prendeu-a com um ganchinho no alto da cabeça, a trança não dança na hora da ginástica...
E a Professora entoava pausadamente: Um... dois. Braços... lassos... agora.
E depois disse:
Menina da Trança tão desatenta!
Então a Menina Da Trança Que Dança disse também uma coisa e foi o seguinte:
Era muito importante e ficou na mala junto aos livros.
O quê? perguntou a Senhora. E a Menina da Trança sorriu, e susteve-se a ginástica. E a Professora disse:
Bem, se é muito importante, vê lá. Que desejas fazer? E todos olhavam, suspensos.
Então, a Menina da Trança Que Dança saiu do seu lugar, correu à sala de aula. A trança agora não dança porque vai segura com um ganchinho no alto da cabeça.
A menina meteu a mão na mala, apalpou, sorriu, retirou aquela frescura macia, envolveu-a em ambas as mãos, junto ao peito, e correu, correu.
A Professora suspendeu de novo a ginástica, a Menina da Trança estendeu o seu braço comprido e entregou-lhe, sorrindo acalorada, um cravo todo vermelho, acetinado, macio, grande e vermelho como a boca entreaberta da menina.
A Senhora cheirou-o demoradamente, acariciou-o com as suas faces, olhou-o de olhos húmidos e disse baixinho:
Obrigada, Menina Da Trança Que Dança. E depois, com todo o cuidado, muito meigamente, prendeu com um gancho aos seus próprios cabelos o cravo bem aberto, bem vermelho... Aquela coisa muito importante.
E repetiu:
Obrigada, Menina Da Trança Que Dança...
A Menina da Trança que Dança
, Livros Horizonte, 1985
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