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ESTADOS GERAIS

(1991)

(págs.40 a 44)

O MEU VELHINHO INESQUECÍVEL

Lembram-se? Há trinta, quarenta anos, uma revista americana que, traduzida no Brasil, atingia máximos (então dizia-se recordes, hoje dir-se-ia topes) de vendas entre nós, publicando resumidos textos, inseria uma secção subordinada ao título "Meu tipo inesquecível".

Existe em toda a gente uma galeria mais ou menos rica de seres de tal espécie. Nesta data propícia a evocações, permitam que retire da minha o "meu" velhinho.

Entrou no meu escritório apresentado pelo Estado, nomeando-me seu patrono oficioso em acção de divórcio que desejava propor contra a segunda mulher, mais nova do que ele uns trinta anos, pois, embora o não parecesse, o meu constituinte rondaria, nessa altura, os oitenta.

Era um sujeito bem apessoado, forte sem ser gordo, bem lavado e bem passado a ferro, de pele saudável, olhos de meigo azul, escovado chapéu, alfinete de ouro na gravata. Operário metalúrgico reformado. Educadíssimo, chegando à curvatura do quase completo beija-mão às senhoras com quem, facilmente, entabulava conversa na sala de espera.

Fora, durante uns trinta anos, feliz com a primeira esposa que falecera. Reconstituíra o lar havia catorze meses com uma viúva. Mas não só a viúva se negava ao débito conjugal, como o insultava com palavras e gestos, o deixava sozinho pelo Natal, o Carnaval e a Páscoa, lhe fizera mão baixa a vário ouro da falecida, lhe partia, de má, os pobres cacarecos da casa em que morava ia para quarenta anos. Farto de tal viver e sem coragem de aguentar o escândalo perante os vizinhos que a megera desencadearia se, acaso ele, aproveitando o tempo de uma ausência, lhe mudasse a fechadura da porta e ali se entrincheirasse, meteu numa maleta os seus trapinhos e recolheu-se em casa de uma irmã que por alguns meses lhe dispôs colchão no corredor., Por último, o "meu" velhinho considerou que era de mais ali e passou a utilizar, com profundo desgosto,, o albergue nocturno onde tinha de recolher-se muito cedo e de se levantar de madrugada, muitas vezes com inquietos sonos provocados por menos civilizados, indesejáveis, companheiros de asilo.

Queria divorciar-se, declarava a princípio, por não poder conceber que a criatura, desconhecida no bíblico sentido, que tão mal o tratara, envenenando-lhe a existência, viesse, à sua morte, a receber, como prémio da sua malvadez e aleivosia, a mísera reforma.

Como o seu caso encalhasse no Tribunal, a secção onde fora parar estava pejadíssima de processos, muitos ainda nem sequer conclusos, não havia juiz, o Conselho Superior da Magistratura só reuniria alguns meses depois, o "meu" velhinho passou a ser assíduo no escritório, estabelecendo-se entre ambos uma maior intimidade que ele, sob a ameaça de desfeita, costumava selar com uma ou duas discretas notazinhas de cem escudos, à força, à despedida, introduzidas na minha mão para um café.

Então, confessar-me-ia que tinha sob o olho uma outra "rapariga" nada para desprezar, disposta a desposá-lo, mal o divórcio fosse decretado.

Um pândego, o "meu" velhinho, relatando-me encantado mas não saudoso, alegre como um rapaz turbulento a quem tudo suavemente se perdoa porque os anos a vir lhe sofrearão os ímpetos, as suas aventuras de saias, algumas delas bem recentes.

A que por certo mais me impressionou ocorrera ainda na constância do seu primeiro, sólido, desanuviado matrimónio. Preso de amores por vistosa cachopa, concluíra que fortuitos encontros o não satisfaziam e engendrara genial plano para os alongar. Comprara três bilhetes para o cinema e um chocolate para a moça, combinando com ela que, no intervalo, o partilhasse com a cara-metade com quem iria ao espectáculo, ocupando, ardilosamente, o lugar do meio, nem sempre, e muito menos neste caso, o de maior virtude. Porque, durante o escuro da sessão, prodigiosamente distribuiria o "meu" velhinho, à esquerda e à direita, os seus afagos e apalpões, abandonando a plateia logo ao bruxulear das luzes sobre a sala, regressando tão-só quando as duas mulheres fossem já amigas, sendo apresentado à pequena e aceitando também um bocadinho do seu chocolate. Ao segundo intervalo, com o seu assentimento, a esposa convidaria a simpática companheira a passar alguns dias com eles. O que brevemente se concretizaria, estabelecendo assim, por via cinematográfico-chocolatínea, o insuspeito metalúrgico a poligamia na conspícua, convencional, judaico-cristianíssima instituição.

Por fim, andava o "meu" velhinho tentando alcançar pouso no "Lar do Comércio", que, felizmente, viria a conseguir mais tarde, quando se efectuou o julgamento. A prova, como era de prever, não foi famosa e perdeu a questão. Ainda me perguntou que novas diligências lhe estariam abertas e ao ser informado de que teria de aguardar cinco anos para requerer o divórcio com o fundamento em separação de facto, encarar-me-ia com os seus claros olhos que o tempo não usara, brandamente inquirindo: "Nessa altura poderei recorrer outra vez a V. Ex.ia?"

Não teve de voltar tanto tempo depois. Obteve com um galão, uns bolos, duas ou três notas de mil escudos o acordo da mulher para o divórcio consensual. Mas voltou muitas vezes. Entusiasmado com a "sua" nova casa onde, num domingo de Primavera, me ofereceu um almoço, que me mostrou palmo a palmo, com o deleite e o orgulho de quem concretizou o maior sonho, obrigando-me a aceitar, no fim, uma garrafa de aguardente puríssima do vinho feito ali. Ainda ma falou, de olho vibrante, das festas em que tomava parte activa, demonstrando sem esforço ser o mais exímio e resistente bailarino, do dia em que lá fora a mulher do Senhor Presidente, dos versos que uma senhora lhe fizera, no seu aniversário, com vasta merenda celebrado.

Ainda voltei a vê-lo, de costas, dando o braço a uma senhora, num fim de tarde qualquer, pela janela do autocarro.

Só há poucas semanas me deram a notícia de que falecera há meses o "meu" velhinho tornado inesquecível.

86-1-30




(págs. 57 a 59)

UM BARCO NO JARDIM

Não é um livro de Sophia. Mas tem o mesmo nome. Escrito em letras longas e vermelhas sobre o cesto branco. revelando-se, pois, e sem mistério barco esta "Menina do Mar", em frente da janela.

Não jaz de borco. De quilha provisoriamente ajustada ao chão, quase escultura sobre rapadas ervas, aguarda no betume novo, na maquilhagem recente, o seu regresso às algas, ao sal, ao sol sem sombras a ocultá-lo.

Sente-se na paisagem um sinal discrepante, como aquela gaivota (chamávamos-lhe Teodora Confeti), que partira uma asa e andava, trôpega e arisca, pelo quintal, em hesitante, desajeitada marcha frustrada pelo destino, concedendo-lhe, no leque lucilante dos voos, todos os espaços.

Um barco está em terra. Incoerente forma agitada em arco, forçadamente estática, no largo do Marégrafo, da degenerada capela de S. Miguel o Anjo, entre camisas, fraldas, lenços e peúgas penduradas em cordas cercando aquelas árvores jovens e delgadas que há pouco dispuseram à beira da pequena alegoria do baptismo de Cristo. Vende-se, declara uma tábua afixada num falso mastro rompendo do seu bojo cor de tijolo.

Param junto dele os automóveis aos domingos. Mas talvez nele não reparem. Vêm para ver o mar, para ver o rio, para ler o jornal, fazer croché, ouvir os relatos de futebol, adormecer tranquilamente entre horizontes vastos que lhes foram negados durante os dias úteis da semana. Vêm porque é domingo, ou porque é hábito, vêm sem prestar atenção de maior às variações do sítio. Vêm sempre, cinquenta e duas vezes no ano, chova, vente, faça sol, felizes por, artreiramente, alcançarem estacionamento disputado por condutor menos afoito, infantis, esquizofrénicos, desvairados, acompanhando os claxons dos que regressam do estádio ou do comício.

Nada ou muito pouco lhes poderá dizer aquele barco menos à procura do dono que do líquido chão para o qual foi talhado, do qual recebeu nome.

É um pouco triste, um barco ali, para venda, algo adernado a estibordo.

"Anseiam os barcos, podem acaso ansiar?", pergunta um verso de um belíssimo livro de poesia, Gramática do Mundo, de Maria de Lourdes Belchior.

Pois eu estou em dizer que este anseia, um tanto deprimido, quando, sobre as pedras do cais, dá pelas redes que os pescadores puseram a secar, quando os corpos das gaivotas marcam de sombra as suas tábuas, quando as marés vazantes e as brisas o percorrem com os aromas ácidos, estimulantes do iodo, das escamas palpitantes dos peixes.

Confesso que o lastimo. Lamento esta "Menina do Mar", entre árvores, terra, pedras, roupas, espessos gazes, ratazanas vorazes. Quase me comove, com o seu letreiro a transformá-la, banalizando-a em objecto de duvidoso préstimo, como seria um automóvel proposto aos compradores sobre um rochedo inacessível, coberto de lapas e de mexilhões. O Jilreu, por exemplo, que, segundo dizem, o mar não cobre nunca.

Tenham pena de um barco estiolando sobre o saibro!

Levem esta triste menina para o mar. Pelo menos, para a embocadura do rio pululando de bóias, de proas, de outros irmãos seus, dados à faina das últimas lampreias, dos derradeiros sáveis.

Juro que, se estivesse disponível, esta "Menina do Mar", defronte plantada, havia de ser minha.

86-4-24



(págs. 75 a 77)

MORREU UM MENINO

Ao nível do mar, ao rés do rio Douro, sobre as rochas, morreu um menino.

Em sábado quente anoitecendo, sob a primeira luz da Lua a encher-se, ruiva, um menino morreu.

Ali em frente, aqui em frente.

Quando se tirava a pele à fruta, quando se bebia o primeiro golo do café, quando se dobrava o guardanapo, quando terminava o noticiário da TV, quando a Maria Virgínia saía do carro, quando eu ainda conservava na mão esquerda parte do cadeado do portão, um menino morreu.

Quando cem anos se cumpriam sobre a morte de Cesário Verde, quando o calor amolecia os corpos, os impacientava, não mexiam os ramos nem as folhas das árvores, as palmeiras se perfilavam estáticas, em aprumo grave de regimento a passar em revista, um menino morria.

Houve um fragor a sacudir a terra, um fumo negro a subir no cais. As janelas abriram-se e as portas. Precipitadas, as pessoas deixaram as casas, atravessaram a rua. O menino anoitecera em flor. Estava, nas vozes, vazio de feições. Havia quem o tomasse por menina. Então, começariam as corridas e os

prantos e as pragas e os gritos. Estabelecer-se-iam as hipóteses, as teses, as antíteses, as sínteses.

Soariam, cavos, os clamores, incendiar-se-iam rostos e gestos no lume da emoção.

A cada um a morte do menino traria uma lágrima, um protesto, um calafrio, um dorido silêncio, uma nervosa, mórbida deambulação.

A rua enchia-se de automóveis, camionetas, carrinhas, motorizadas, ambulâncias, carros de bombeiros e polícias, porquês, quês e comos, até à uma hora da manhã, quando já se sabia que um menino morrera por despoletar uma granada. Levado dali havia muito tempo, entre sons sibilantes. E os jovens casais que iam ou vinham, enlaçados, das boîtes, ainda, entre beijos, só averiguariam de relance o sucesso, logo prosseguindo, apressadamente.

Como se fosse a primeira criança vítima dessas fatais recordações, macabra e ludicamente, trazida da guerra pelos soldados que, mais dia menos dia, meses, anos, se aborreciam delas, considerando o seu perigo, a ameaça mortal constituindo-as, abandonando-as em locais desertos ou lançando-as aos rios, este menino faria, por momentos, esquecer os outros, tantos, que, com ele, infantilmente perderiam a vida não por delicadeza, mas por curiosidade, "inquietação de descoberta e dedos ávidos de posse".

Condenar-se-ia a incúria, o desleixo, a irreponsabilidade criminosa, mas o menino não voltaria à vida. não partira de casa para a guerra (dizia-se que passara todo o dia na cama, evitando o ardor estival), mas dela ou do seu espectro apocalíptico recebera a morte. Dizia-se que saíra só ao fim da tarde, para ir aos camarões ou às chumbeiras presas nos rochedos, postas à mostra nas vazantes. Fosse ao que fosse, nada importava já. A morte interceptara o seu regresso, o seu jantar.

Um menino morrera e as vizinhas passariam a aconchegar os filhos, a tomar mais cuidados com eles, a proibi-los de ir para os penedos, onde poderiam achar um saco verde, de plástico, com dizeres amarelos e, lá dentro, feia, velha, ferrugenta, com atrozes convites, a sua própria morte.

Depois, com o tempo, máquina de esquecer, os ralhos, as porradas, os choros, as inclemências de linguagem, os dias podres, outras inquietações, a vigilância desvanecer-se-á, como a memória do menino morto desta crónica triste.

86-8-28



(págs.78 a 80)

MORTE APARENTE

Parece impossível, incrível, parece uma boutade de mau gosto, andarem por aí a dizer que tu morreste, O’Neill.

Claro que a morte, a "arrenegada", como lhe chamaste, só poderia colocar-se de permeio – "De permeio, pois pois, que isso de morrer / não faz parte de nenhum programa" –, entre ti e a Poesia e isso não podia passar de um acidente ainda que torvo, triste.

Disso se convenceram todos os teus leitores e até aqueles que te não tinham lido mas usavam os teus versos como facas, luzes, gargalhadas de empréstimo, de completa dádiva. Porque era esse o programa a cumprir: dar a ver, a viver a Poesia, não uma velhorra espartilhada e lutuosa, muito hirta e solene, mas uma rapariga que tratavas por tu, de quem sabias os seios, com quem acamaradavas na feira cabisbaixa d’ "O País Relativo", "Por conhecer, por escrever, por ler.../ País purista a prosear bonito / a versejar tão chique e tão pudico / enquanto a língua portuguesa se vai rindo..." se ria "galhofeira" contigo.

Não, Alexandre, nem tu próprio, a pores os condes todos, menos o que corou ao ser condecorado, na "Homenegem ao Conde de Aguilar, Ilusionista", masginalizado e encerrado entre parêntesis ao invés, ou a aristocratizares os Silvas destes reinos, ou colocando o tac! entre o nosso destino e a suspeita metódica da (im)possível mudança, a fazeres de Albertina um insecto insulto, o quotidiano recebido como mosca, a chamares a Irene demorando a servir o leite-creme, mesmo enrodilhado, enrodilhando-nos naquela "pequena morte", no "seu minucioso e porco ritual", n’ "esta nossa razão absurda de ser" de "Um adeus português", poderás convencer-nos que a morte te levou, porque era teu desígnio

Viver a vida e não viver a morte,
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,
Atraiçoar a morte com a vida!

Não, nem tu, ó mágico, podias confundir-te na morte e não queiras dizer premonitório o verso que seguia esta quadra do "Soneto Inglês": "Depois morrer, de coração aberto."

Não, Alexandre, ó lírico, vestindo, desnudando as palavras, guarnecendo-as de asas e de escamas, definindo-as como animais doentes, é difícil assim desaparecer sem mais nem menos, morrer, passar para o outro lado, mandar publicar eu já não estou aqui, como quem disse "Estou onde não devia estar" ou "Estou sozinho diante da página em branco".

Muito mais neste tempo, nestes dias em que apetece falar como falavas, ter esse ar natural e irreverente, ser a criança que sempre foi poeta, o poeta negando-se ao "modo funcionário de viver", mostrando-nos a todos e radiografando-nos através desses vidros irónicos da "caixadóclos" (por onde masoquisticamente, até aos itálicos e às reticências te entregavas, perseguias), ou das rodas voadoras de arame dessa bicicleta que encavalitaste no nariz para a foto ilustrando três poemas teus postos em sueco por Marianne Sandels.

Não, um Príncipe das Letras não pode morrer tão brevemente e á toa, mesmo que os jornais tivessem declarado há quatro meses que em perigo de vida fora hospitalizado, mesmo que q televisão tivesse mostrado o seu esquife, o seu cortejo fúnebre, as pás de terra que o sepultaram.

Alexandre O’Neill não nos deixou, não nos pode deixar. Atravessou uma fronteira, passou desde agora a ser eterno.

86-9-11



(págs. 87 / 88)

UM ACENO AMICÍSSIMO

Olha Ruy, hoje mesmo, 12 de Outubro de 1986, dia em que foi anunciada a tua morte, consultando um velho caderno onde apontara alguns temas para estes "Estados Gerais", desencantei esta anotação: Nós não cabemos na Terra. A fé noutros mundos. Vidas extraterrenas. Condições de vida noutras galáxias. O meu amigo Ruy Cinatti: "Nós não somos deste mundo."

O meu amigo Ruy Cinatti, o Poeta Ruy Cinatti estava morto. E muito doloroso seria para o cronista ter de assinalar, de Setembro a Outubro, a morte de dois grandes poetas portugueses.

Conheci Ruy Cinatti em pessoa há dois anos, nos "Primeiros Encontros de Poesia de Vila Viçosa", "em Vila Viçosa, ameno ermo / onde o risonho ritmo das conversas / se une ao silêncio mais profundo", como, num poema datado de 7 / 6 / 85, no decurso dos "Segundos Encontros" aí realizados, deixou escrito.

Em 1984, Junho, o Poeta era um menino grande, incontido, irreverente, capaz de emocionar os camaradas ao dizer um poema, capaz também de, com um cigarro aceso nos dedos de pele fina, cor-de-rosa, interromper um discurso medíocre, silabando sonoramente os seus béu-béus.

O Ruy era um irmão puro e sem idade, natural, adquirindo os livros dos outros, pedindo-lhes dedicatórias, dando-lhes a sua direcção, convidando-os para a sua casa, falando de Jorge de Sena e de sua Mulher, seus compadres, ("Depois desta vez" – dir-me-ia, na sua última carta, Mécia de Sena – "deixei o O’Neill aflitivamente morrendo (e morreu poucas horas depois da minha partida) e o Cinatti internado num estado que me parece sem grande esperança"), de Timor, de Poesia, despedindo-se, comovido, tratando, ternamente, os amigos de "gandulos".

O Ruy era sempre um senhor de muitas gerações, possuindo um apurado encanto, um gosto requintado, um civilizadíssimo sentido de humor.

Quando, ano passado, com ele me voltei a encontrar nos "Segundos Encontros de Poesia" daquela simpática terra alentejana, e até mais de perto com ele convivesse, achei-o menos efusivo, mais fatigado, lamentavelmente, menos feroz. E creio que essa ferocidade, ou, se se quiser, iconoclastia, era um dos atributos mais vivos da sua riquíssima personalidade.

Estava acabrunhado, mais metido consigo, mesmo quando se ria de si próprio, ao partir num almoço uma placa dentária, mergulhando-a num copo de vinho branco e decorando-a com perrexil e poejos.

Quando, numa manhã quente de domingo, analisei alguma poesia de Raul de Carvalho, em homenagem ao Poeta participante nos "Primeiros Encontros" e, entretanto, falecido, o Ruy Cinatti que por então fizera setenta anos, abraçou-me e comoveu-me quando disse: "Nos próximos Encontros é de mim que falas, pois já cá não estarei."

Não se realizaram os "Terceiros Encontros de Poesia de Vila Viçosa", por certo com muita pena do Poeta a quem cabe a sentida flor do meu respeito, da minha muita estima, do grande prazer que foi conhecê-lo, alegre e vivo, a quem dirijo nestas linhas um aceno amicíssimo.


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