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Vasco Mouzinho de Quevedo e Castelo Branco (15??-16??): desconhece-se o lugar de nascimento e sabe-se que faleceu em Setúbal em data incerta. Fez estudos de Jurisprudência em Coimbra. Dedicou-se à poesia, sendo, na opinião de Manuel Severim de Faria, o maior épico depois de Camões. Escreveu poesia lírica que se inscreve na escola maneirista, tendo-se notabilizado com o seu poema épico em oitava rima Afonso Africano (1611). Obras: Discurso sobre a Vida e Morte de Santa Isabel Rainha de Portugal e Outras Várias Rimas (Lisboa, 1596); Afonso Africano, Poema Heróico da Presa de Arzila e Tânger (Lisboa, 1611); Triunfo del Monarca Filipe III en la Felicíssima Entrada de Lisboa (1619).

Outras páginas sobre o autor:

  • Vasco Mousinho de Quevedo e Castelo Branco (biografia)



    AFONSO AFRICANO


    As armas e o varão ilustre canto
    que de Africano tem insígnia e nome,
    cuja alta fama será viva, enquanto
    no dourado horizonte o Sol assome.
    Donde começarei? Que o grande espanto
    me tem suspenso, que princípio tome,
    que tantas obras quantas me apresenta
    vivo calor que mais e mais se aumenta.

    ...............

    Conta-me agora, ó Musa, enquanto abrindo
    Afonso vai o líquido elemento,
    Que desvios se vão contra ele urdindo
    Que possam perturbar-lhe o santo intento,
    Que tempestades o ar vão confundindo,
    Quem move os ares, quem conjura o vento,
    E que mágico esprito engenhos usa
    Que Arquimedes não forma em Siracusa.

    Num monte cavernoso que alça o colo
    De Arzila pouco trânsito distante,
    Numa alta cova onde não chega Apolo
    Por mais que avive o raio rutilante,
    Em clausura vivia o mago Eudolo,
    Antigo sucessor do velho Atlante,
    De maravilhas cheio, Que alcançara
    Parte por arte sua e parte herdara.

    Este era na arte igual ao grego raro
    Que previu o destroço dos troianos,
    Das aves que roubou do ninho caro
    O dragão fero, computando os anos;
    Nem era nos augúrios menos claro
    Que o que na guerra dos irmãos tebanos
    Abrindo-se-lhe a terra; co'a ruína
    O reino amedrentou de Proserpina.

    Este das asas do plumoso bando
    Ou cortem leves o ar, ou trepidantes,
    Vários sucessos vai conjecturando
    Que a Mauritânia prognostica instantes
    Este com olhos atentos 'stá notando
    As entranhas das reses palpitantes,
    Como, que o que Deus tem determinado
    Num animal, esteja figurado.

    Este observa as estrelas radiantes
    No mais alto silêncio e mais profundo,
    Notando os movimentos das errantes
    E das fixas o cintilar jocundo,
    Dos signos, dos planetas tão distantes
    (Que tanto podem no pequeno Mundo)
    Virtudes e secretas qualidades
    Que inclinar podem, não forçar vontades:

    Este de pedras cândidas e belas
    A propriedade e natureza alcança
    E, desvelado em conjunções de estrelas,
    A cujos nascimentos conta lança,
    Figuras espantosas abre nelas
    Com que as sombras do lago Averno amansa,
    Qual em berilo, qual em calcedónio,
    Qual em safiro está, qual em sardónio.

    CANTO II, 41-46



    Vejo a fonte de males já secar-se,
    Vejo a brasa do incêndio amortecida,
    O Xarife no rio soçobrar-se
    Querendo a nado libertar a vida;
    E já vejo de todo perturbar-se
    A gente por mil partes afligida,
    Já sua desventura se publica,
    Já pelos mouros a vitória fica.

    Menos esta desgraça se chorara,
    Pois tão poucos a tantos se atreveram;
    E por conta infalível, certa e clara
    Vencedores em dobro aqui morreram,
    Se aquele Rei querido não faltara
    À vista dos que tanto o defenderam,
    A quem vejo cercado do inimigo
    E posto quase no último perigo.

    Os esquadrões grossíssimos desceram
    Dos alarabes, e com bravo insulto
    Dos vassalos o globo acometeram
    Onde Sebastião estava oculto.
    Muitos mataram, muitos ofenderam
    Por se não descobrir ó régio vulto,
    Mas não havia já poder bastante
    A resistir a fúria semelhante.

    E vendo que lhes era necessário
    Dar-se algum acercado pensamento
    Para se reprimir o temerário
    Encontro, e pôr-se el-Rei em salvamento
    Divisa branca, símbolo ordinário
    De paz e sujeição se estende ao vento,
    A bárbaros pedindo em tanto aperto
    Algum conveniente e são concerto.

    Mas quem pudera pôr freio à virtude?
    Quem reprimir um ânimo valente?
    Para que inda em tais lástimas se ajude
    De condições, que o brio não consente;
    Não é bastante a morte a que se mude
    Sebastião de si mesmo, e de repente
    Com furor represado se abalança
    Onde o reino acabou sua esperança.

    Tal o calor do Sol foi levantando
    Lá na parte o vapor mais alta e fria
    Onde se esteve em nuves engrossando
    E dentro a exalação se densa e cria,
    Logo se vai em pedra conglobando
    L rompendo a região desse ar vazia
    Nas íntimas entranhas da alta serra
    (Assombrando o contorno) ali se enterra..

    Campo de Alcácer, nunca em ti se veja
    Primavera gentil, mas seco Estio,
    Nunca o céu, na sazão que se deseja,
    De água te cubra nem de orvalho frio
    O teu nome infamado sempre seja,
    Que cm ti perderam fortes lustre e brio.
    Não pôde dizer mais Eudolo, e sente
    O mal futuro como já presente.

    CANTO IX, 94-100



    DISCURSO SOBRE A VIDA E A MORTE
    DE SANTA ISABEL RAINHA DE PORTUGAL



    PROPOSIÇÃO E INVOCAÇÃO

    O furor de cantar, Musa, refreia
    E destempera a temperada lira,
    Qual não sentindo a nau soe a sereia,
    Antes porque tardou chora e suspira.
    Se quiseras chorar com larga veia,
    Eu mesmo lamentando te seguira,
    Que o remédio mais certo de alegrar-me
    É nunca de tristezas apartar-me.

    Busquei mil vezes gostos que cantasse
    Com subido coturno e voz sonora,
    Mas temi com razão que os estranhasse
    Um triste coração que sempre chora:
    Que a Quem triste se põe e triste nasce;
    Mudado o nome à rubicunda Aurora,
    Só tristezas e mágoas agradaram
    Quanto mais que já gostos acabaram.

    Qual a experiência certa alcança
    Na verde hera do triste velho abrigo,
    Que se num vaso seu água se lança,
    Com licor que inventou o outro antigo,
    Este se some, aquela só descansa
    Como triunfador do inimigo,
    Foge logo o prazer, e em seu lugar
    Como mais natural fica o pesar.

    ............................

    Por ti, Musa, por ti já não publico
    Esta tão triste e lastimosa história,
    Inda que de pesares ande rico,
    De prazeres farei larga memória.
    Mas pois de teu furor forçado fico
    Para ,que ambos tenhamos nossa glória,
    Canta e chora comigo juntamente
    Que, pois to peço, eu sei que se consente.

    Assi canta a suave filomela
    Entre os ramos da verde e fresca planta,
    E juntamente chora a forma bela
    Mudada em penas, para pena tanta,
    Assi também a que morreu com ela
    Lembrada destes danos chora e canta,
    Assi de sua morte vendo a hora,
    O cisne docemente canta e chora.

    E já que hei-de cantar contentamentos,
    Que volva atrás os olhos me é forçado,
    Pois tudo quanto vejo são tormentos,
    V6s, Isabel, sereis o meu cuidado.
    Em vós empregarei meus pensamentos
    Sendo por vós meu canto celebrado,
    Deixando à parte a dor que me consume,
    Inda que é grande dor deixar costume.

    A vida de Isabel e a morte canto
    Entre nós morta, em Aragão nascida,
    Vida e morte de todo o mundo espanto,
    De cuja glória certa não duvida.
    Morre alegre quem passa a vida em pranto
    E a quem a vida é morte, a morte é vida,
    Qual na vela se vê, que estando ardendo
    Quando a matais a vida tem morrendo.

    ...........................

    Ó vós ilustre rio em cujas águas,
    Para qualquer engenho história bela,
    Arderam já num tempo vivas fráguas
    Por uma nobre fonte de Castela.
    Té que para remédio destas mágoas
    Se foram misturar co'as suas dela,
    Qual amoroso Alfeu, que não descansa
    Até que a fugitiva fonte alcança,

    Este novo penhor vos ofereço,
    Forçosa obrigação de ânimo grato,
    Por vosso, em toda a parte me conheço,
    Como vosso ando e como vosso trato.
    Vós lhe dai o valor, o ser e o preço,
    Vós ponde as cores a este nu retrato,
    Recolhei-o, Senhor, enquanto passa
    A desfeita corrente, que a ameaça.

    CANTO I, 1-3, 11-14, 17-18



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